sexta-feira, 6 de Abril de 2007
Já não sei o significado da minha flor-de-lis - a ode em cujas pétalas estão esculpidos os meus dias. Abafei os rasgos que profanaram a minha pele; asfixiei-lhes todas as vozes, todas as investidas, todas as géneses, até ser só silêncio impreciso.
A palma da minha mão assenta nesta muralha vítrea. O mundo, lá fora, através da minha clausura geométrica. O mundo, lá fora, através dos meus cinco dedos. Difuso. Uma sombra. Não mais o mundo. Não mais nada. Eu.
quarta-feira, 4 de Abril de 2007
O estilhaçar do trajecto, aceso no olhar paramnésico, ante o posicionar do passo primeiro. Fim? Não. O fim é um poço sem fundo; todo e cada fim é um anfitrião prosélito ao princípio do mif: meras, vagas eufonias... E quando a dor já não é dor, mas rod, roda no círculo vicioso de uma azáfama insípida. Há espelhares dissidentes. Talvez seja essa a razão de ser: mera, vaga paréctase.
sábado, 24 de Março de 2007
A premência a ribombar no ouvido, a estilhaçar-se em mil premências giratórias, a amarrar o ser a premências de crescente sinuosidade; a premência cujas amarras enleiam os meus diplasiasmos incertos; a premência que embate, evanescente, na acepção de certa iole; a premência cujos passos, por entre tais águas, são sempre agrestes e pesarosos e quanto mais céleres, mais se unem à disbasia - prostro-me, audiente, não pela música, não pela voz, não pelas palavras.
sábado, 17 de Março de 2007
Só resta o silêncio. O silêncio, por todas as horas, naus que das minhas mãos verteram e zarparam para onde as não posso alcançar.
O mundo é-me um palco excessivamente veemente. Nada edificarei, nada serei de novo: já foram tudo o que eu poderia ser. Não tenho n’Alma a exuberância de aspirar a sê-lo. Sou tão-somente uma figurante - e resigno-me, com a veemência que não tenho para consagrar ao mundo, à minha cláusula.
A única migalha que os Deuses nos atiram é a vaga interpretação de um papel a que chamamos “eu”. “Eu”. Eu. Ahhh... fosse possível, eu...! Não. Não me disponho ao estatuto de incipiente! Gozo-me para comigo da soberania de ser figurante nestes actos - deter o enigma dos gestos, das atenções, das palavras, dos entendimentos... Também isto não é novo; aldemenos, porém, não serei mais uma imperatriz ingénua: renego ao mundo tudo o que poderia ser.
sexta-feira, 9 de Março de 2007
Não dedico cuidados a ninguém. Poderia descender de um dos quaisquer mendigos por que passo e que abandono à sua sorte todos os dias, sem algia incessante que me brade e prenda. Atavismos? Amizades? ...meros tecidos circunstanciais, nada mais! As empatias feitas árvores genealógicas foram semeadas para os homens se iludirem raízes porque as raízes se iludem árvores: o ‘nós’ é uma floresta de enganos.
domingo, 11 de Fevereiro de 2007
Pater noster, qui es in coelis...
Venho à igreja para Te ofender com a minha presença. Anseio afligir-Te com a minha visita contrariada como me afligiu ser presa de Teu passivo circo.
Restituo-Te os vagos prados das eras idas, ó Júpiter dos artifícios olímpicos...! Permite que Te tome a ira ante meus lábios manchados de injúrias: rasga-Te em tempestades sob a minha fronte, que depois, depois... é mister sacrificar(es)-Te... Sê-me um carneiro de olhos lânguidos: destrona-Te se tudo podes... perjuro Todo-Poderoso.
Amen
Tenho nos poetas da intempestividade o tédio afectado dos passos. Toda e qualquer manifestação de movimento, cada possível colóquio... tudo nas suas figuras me melindra. O perturbar da minha esfera olímpica causa-me animadversão.
Ergo a cabeça, encaro a personificação; reconheço nova óptica: o repisado repercutir em ecos de repetição da anciania do mundo. Confio a revelação a um silêncio esfíngico somente para não enviar arautos - pedaços de caos - ao mundo. Não pelo mundo: por mim; por mim e apenas por mim. Porquê conceder-lhe um pedaço de caos? Porquê conceder-lhe um pedaço do que quer que seja?
sábado, 10 de Fevereiro de 2007
Nunca te ouço deveras porque, quando te ouço, vislumbro-te por entre a máscara hialina. E, quando te não ouço, posso sonhar-te, posso devanear-te estrangeiro à teia da minha percepção.
O mundo é excessivamente falho para que eu te ouça, meu Amor. Prefiro desconhecer eternamente o que vais dizendo, estranhar-te quando te ouço com os ouvidos errantes da consciência e guardar-te com um sorriso para mim, eterno hausto, enquanto te vais desvanecendo nas palavras - e eu, na percepção - que o mundo nos deu: enleios, enleios...

